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Geist

A galera Correio d’Ázia (1816)

diário de bordo de João Joaquim de Freitas, capitão da embarcação e continuada com a pesquisa de documentação relacionada no Arquivo Histórico Ultramarino, terminara finalmente, no recife de Ningaloo, ao largo de Point Cloates, algumas milhas a Sul do Cabo Noroeste

E que navio era este que ia de Lisboa para Macao contra tempos, mar, e vento, fogo, baixos e perigos de costas e erros de Mappas e que se perdeu no dia vinte e cinco de Novembro do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil outo centos e dezesseis andando a galera acima ditta a vela, costiando a Costa de Oeste da Nova Hollanda na distancia da ditta sette a oito milhas?

O Correio d’ Ázia era uma galera mercante, registada na praça de Lisboa, propriedade de José Nunes da Silveira, comerciante de Lisboa. Fazia o percurso metrópole-Macau desde pelo menos 1813, transportando sobretudo chá, gangas, canela, sedas, porcelanas da China e anfitião – termo pelo qual se conhecia então o ópio. Em todas as anteriores viagens, o Correio fizera sempre escala no Brasil e demais portos a meio caminho. Curiosamente, em 1816, a sua rota era “em direitura”, sem escalas – seria por levar a bordo 106.500 patacas, cerca de 2.5 toneladas de prata em reales-de-a-ocho espanhóis cunhados no México, correspondentes, hoje, a mais de 2,6 milhões de euros? Dinheiro cujo destino final permanece uma incógnita, já que no naufrágio, a crer nas palavras do capitão se perdeo tudo a excepção de huma somma de dinheiro (com raros trastes e fatos dos alguns naufragantes) que unicamente se salvou pela occurencia de couzas naquela critica situação.

Navegava de noite a galera a seis milhas por hora, à uma da manhã, quando sucedeu pegar fogo na Bitacula, o qual durou por espaço de hum quarto de hora, não podendo governar por a Agulha o caminho determinado pelo Commandante, e logo que se pode governar pela Luz de huma Lanterna ao caminho destinado no espaço de hum quarto de hora se devizou de cima da tolda pelo Escripturario Joze Antonio Pinto e o Contra Mestre Pedro Francisco huma arrebentação por Sotavento da Proa de Estibordo, sem que as vigias que havião a Proa destinadas pelo Commandante dessem fé de tal; e mandando o dito Commandante orçar todo a bolina, quanto lhe dava o vento que era nesse mesmo temo Oeste, bateo o navio duas culapadas (…) e a segunda culapada lhe faltou o Leme; e immediatamente atravessou o Navio ao mar, e adornou sobre o lado de bombordo e se encheo de agua arrebentando [o mar] com tanta força que salvarão o Navio deste bordo Bombordo, e logo se picarão as enxarceas de Estibordo dos mastareos e os cahirão os dittos.

Arribados à costa numa lancha, forão alguns marinheiros, e os dous Escripturarios e o Cirurgião pela terra dentro mais de huma legua a fim de verem se podião descobrir agua, ou habitantes, apesar de serem bravos, segundo dizem, mas com tal infelicidade que voltando as dittas pessoas menos dous ao sitio da nossa rezidencia nos derão por noticia que nada encontrarão mas so sim pegadas de animais brutos, assim como de Leons, Tigres, e Lobos, e muitos rastilhos de Cobras e algumas barracas de barro cubertas de palha e com as portas muito piquenas.

Perdidos misteriosamente dois homens em terras australianas, a lancha fez-se novamente ao mar, e com tanta felicidade que foram avistados poucas horas depois pela galera americana Caledónia, a bordo da qual rumaram a Timor e depois a Macau. Na Cidade de Nome de Deus, Alexandre Ribeiro da Silva, terceiro piloto e Escrivão, João Joaquim de Freitas Capitão Tenente e Comandante, António Joaquim da Silva, segundo Piloto, Sebastião Jozé Ferreira, Sobrecarga, Frei Jozé de Epifania, Capellão, Vallentim Ignacio Roza Limpo, Cirurgião, Antonio Joze Pinto, Escripturario, Bento Joze Pereira Bastos Escripturario, Pedro Francisco, Ignacio Dias Barboza e João de Freitas, Guardião prestaram contas do sucedido ao Governador de Macau, Miguel de Arriaga Brum da Silveira.

Este autorizou então a saída do brigue Emilia, propriedade de Pedro José da Silva Loureiro, para que se deslocasse ao local de naufrágio e tentasse recuperar o dinheiro.

Terá tido sucesso? Não o sabemos. Parte das patacas, uma concreção com 22 kg de peso, contendo 700 a 1.000 moedas em prata foi encontrada pelos arqueólogos australianos, juntamente com dois canhões com cerca de 1.2 metros de comprimento, uma âncora e uma enorme área coberta por centenas de placas em ferro, usadas para lastrar a galera.

As restantes moedas ou ainda lá estão ou então permanecem nos porões do Emília, já que o navio que foi fazer o salvado do Correio acabou igualmente por naufragar, desta vez nos estreitos de Gaspar, depois de embater contra a Discovery Rock, em águas da antiga colónia holandesa de Java, actual Indonésia – perdeu-se, diriam os antigos cronistas.

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Correio da Ázia (1816) AHU, Macau, Cx 42, doc 18, 6 de Fevereiro 1817

Illustrissimo Excelentissimo Senhor.

Havendo naufragado na Costa da nova Hollanda o Correio da Azia, Navio pertencente a Jozé Nunes da Silveira da Praça de Lisboa, donde vinha para esta Cidade com mais de Cem mil patacas em dinheiro alem de fazendas, de que apenas poude salvarse o que havia nas Caixas de alguns Officiaes, e ião tirando os Marinheiros, montando o salvado a 6,306 Pats. escapando todos na Lancha, que largando da Terra com a pesca de dois Marinheiros teve a fortuna de encontrar o Navio Americano Caledonia, que aqui os trouxe. Quando pelas informaçoens a que procedi, ja em attenção ao fundo, e enelado daquella paragem, ja finalmente á Estação, que algua pequena expedição approveitaria, tanto para salvar algum dinheiro, como mesmo para verificar a Costa mal situada nos mappas, quando a diligencia não tornasse mais pezada a sorte dos seguradores, e arriscantes, sobre quem o abandono havia feito recahir os effeitos do Sinistro, tomei a deliberação de mandar o Brigue de Pedro Jozé da Silva Loureiro, unico que havia, e se offereceo para aquella expedição com a Condição de lhe pagar quarenta por Cento sobre o Salvado, dando-lhe por ajuda de custo quatro mil e quinhentas Patacas do dinheiro tirado pelos naufragados com clauzula, de que esta quantia se tiraria precipocamente, admittida a divizão para o restante: plano que acharão conformes os Negociantes, que ouvi sobre esta materia em a qual não entraria se a ideia da utilidade me não fizesse prezumir o consentimento dos interessados, ligados por isso mesmo às indemnizaçoens necessárias, e que como taes tornao disponivel aquelle dinheiro, ainda que nao haja felis resulta (sic) como meio sem o qual nada teria obtido.

Nem a condição de quarenta por cento se pode reputar excessiva quando se compara com a sorte que vai correr o Estipulante, alem do risco de vida a que se expoeem em tão pequena Embarcação. Com esta occaziao aproveitarei a habilidade do Pilotto Luis Antonio da Silva Beltrão, que aqui sahio da Carolina dessa Praça por desintelligencias com o Cappitão para fazer verificar as Cartas por dever-se aos Estrangros este melhoramento; indo de Commandante o mesmo que veio no Navio naufragado o Cappitão Tenente João Joaquim de Freitas.

O documento junto apoia o que digo. espero V. Exa. leve a Real Prezença de S. Mage quando o mereça a qualide do assumpto.

A Illustrissima Excelentissima Pessoa de Vossa Excelencia Guarde Deos

m.an.Macao 17 de Fevereiro de 1817

Miguel de Arriaga Brum da Silveira

Requerimento

Ilustrissimo Senhor Conselheiro Ouvidor Geral – Diz João Joaquim de Freitas Comandante do Navio Correyo d’ Azia do Proprietario Jozé Nunes da Silveira procedente de Lisboa, que na sua viagem deste Porto ao de Macao sucedeo naufragar o ditto Navio na Costa da Nova Hollanda, de que se fez o devido protesto, por este acontecimento se perdeo tudo a excepção de huma somma de dinheiro (com raros trastes e fatos dos alguns naufragantes) que unicamente se salvou pela occurencia de couzas naquela critica situação, e ficou entregue nesta Cidade á ordem de Vossa Senhoria, e como pelo naufragio ditto se houve de marcar com clareza o sitio onde pelas suas circumstancias encontra o Supplicante probabilidade de que existirá na mesma paragem por longo tempo o dinheiro vindo no vazo sinistrado, elle a bem dos Arriscantes e Seguradores, a cuja conta ficou pertencendo o perdido pelo abandono dos Mutuarios e Segurados, emprehende derigirse ao Sitio e salvar o que la ficou, debaixo da Clauzula (evitando sobrecarregaros mesmos Arriscantes e Seguradores mayor dispendio) de entrar a porção do dinheiro salvado pertencente á carregação do ditto Navio para as despezas precizas para a expedição; e verificando-se a salvação, que se intenta deduzir-se uma gratificação a razão de (—) (sic) por cento ao Emprehendedor do que for achado, depois da separação precipua do que tiver entrado para as despezas: a qual separação entende estar no cazo o Negotiorum Questionis segundo a denominação juridica e por isso facultada, e favorecida pelas Leys por ser em beneficio dos respectivos interessados; a cujo fim Supplica a Vossa Senhoria a devida authorização, mais providencias a fim de passar a negociar este assumpto com aquellas pessoas, e daquella forma, que Conduzão a hum bom exito, como se espera portanto – Peço a Vossa Senhoria seja servido deferido no que requer Ex merce

Relação de dinheiro que trazia a Galera Correyo d’ Azia de Lisboa

Commandante Patacas dezesseis mil 16,000 Sobrecarga setenta mil 70,000 Escripturario Onze mil quinhentas 11,500 e Pedro Joyce nove mil 9,000 são Patacas Cento e seis mil quinhentas

João Joaquim de Freitas

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